tudo é provisóriamente eterno para os poetas... tudo é eternamente provisório para os amantes e o poema apenas a configuração do instante.

-Capinam-

11 de maio de 2015

(Re)Encontros.

Às vezes é preciso se perder para poder se reencontrar... Neste movimento, estar perdido pode ser o momento mais importante para aprofundar em si mesmo... chegar ao íntimo do que se é, de suas dores, angústias, prazeres e efemeridades,  de sentir sua fragilidade de fugacidade tão intensas ao ponto de pensar que a realidade não é existente, nem explicável... Que na verdade tudo isso é um conjunto desordenado de caos e insanidades. Tudo fruto do que estamos tentando escapar a todo o momento. Tudo fruto de nós mesmos, do que somos quando não sabemos quem somos.
Hoje acordei desanimada. Um dia ensolarado, bonito até, cheio de coisas pra oferecer, porém como acordei permaneci... estirada na cama, pensando que sentido faria levantar e enfrentar um cotidiano que não me deixa espaço pra pensar. Deitada estava, deitada fiquei, deitada estive até que ouvi tocar uma música que há tempos não ouvia... Aquilo foi como se estivessem injetando sangue nas minhas veias e por um momento já não era mais possível estar deitada. Precisava saber de onde vinha, quem ouvia, quem além de mim gostaria de uma música dessas pela vizinhança.
Com meus pijamas percorri a calçada até identificar um portão verde, o qual nunca havia reparado antes, quatro casas após a minha... e inevitavelmente toquei a campainha. Enquanto aguardava alguma resposta não pude deixar de ficar me perguntando como não havia reparado neste portão antes... quantas coisas tão próximas a mim e que não as vejo realmente... Porque será que eu não as vejo?
Eis que minha resposta chegou ao meu encontro, e depois do barulho de ferrolho enferrujado a abertura do portão verde me revelou os olhos grandes de uma outra pessoa que me fitou tão surpresa que não podia esconder sua expressão. Ela que tinha os olhos castanhos mais bonitos e brilhantes que eu já havia visto, vestia pijamas de calça comprida como eu, talvez também pensando que não valeria muito a pena trocá-los no dia de hoje.
De um jeito meio desajeitado, cocei a cabeça e perguntei se estava incomodando... mas que de toda forma e por algum motivo que não sei explicar essa música me fazia sentir uma mistura de sentimentos tão grande e que como não era muito conhecida, eu não me contive em procurar saber quem a ouvia... Quem além de mim a ouviria tão alto, tamanho dia útil, logo no dia em que me senti tão desanimado, pequeno e insignificante?
Ela sorriu e seu sorriso misteriosamente pareceu fazer parte da melodia da musica que me atraía. Seu sorriso imperfeito e que por sua imperfeição parecia o mais perfeito pra mim, acompanhou um convite para entrar, um convite para um café na varanda. E assim ficamos sentadas, café em mãos, escutando a música terminar e tendo expressões parecidas a cada parte... Terminada a canção ela tirou o cd, que na verdade era uma cópia, e me deu de presente dizendo que poderíamos ouvi-lo qualquer dia desses... que afinal não conhecia muita gente que gostava da música e inclusive não entendia como podiam não se deliciar com ela. Naquele momento senti nascer uma conexão que não sei explicar. Me despedi, pedi desculpas pelo incomodo e disse que devolveria o cd assim que possível.
Chegando em casa, passei o dia inteiro ouvindo as musicas gravadas e cada uma delas pareceu diferente para mim... diferentes de todas as vezes que já havia ouvido. E ao anoitecer, deitei e de fones de ouvido sem conseguir tirar a lembranças dos grandes, expressivos e castanhos olhos atrás da porta verde. Pensei... o quão incríveis e inesperadas podem ser as conexões que fazemos com as outras pessoas. Naquele momento eu já não era mais a mesma, algo tinha mudado, mesmo eu não sabendo o que era...
Adormeci pensando no que diria amanhã quando fosse devolver o presente, pensando no quanto gostaria de conhecer a alma daquela que me ajudou a ter um dia diferente do que eu esperava... e ajudou sem esforço nenhum... que me ajudou apenas por me encontrar... por sua alma se encontrar com a minha.
Adormeci querendo que amanhecesse e que fosse um dia ensolarado para se cantarolar enquanto se passa um café... De repente acreditei que poderia ser um bom dia para conhecer coisas novas. Um bom dia para cafés, conversas, musicas e silêncios. E que talvez existir fazia muito sentido. Adormeci sorrindo.



2 de maio de 2015

Continuando (amando)... ContinuAr


Hoje um amigo se queixou para mim a respeito do quanto as pessoas de bom coração são massacradas por aquelas que não se importam com os sentimentos dos outros. Refletimos um pouco sobre isso... eu com minha constante curiosidade e ele sobre suas lágrimas de tristeza inconsolável. Percebemos, juntos, que esse mundo ao avesso, superficial e injusto provoca um sentimento de desamor em todos os quais que deixaram o coração aberto para o embrutecimento... e mais ainda, o reflexo de tais corações acaba por atingir os que em nada temem amar e serem amados. O embrutecimento assim, atinge a todos e a todos faz sofrer, de uma forma ou de outra.
Quantos poetas já nos presentearam com o ápice de suas dores e seu amores irremediáveis? Mesmo assim parece-nos que a poesia não cabe ao nosso tempo. Rimas, versos, histórias e aventuras de amantes que não fazem parte do que vivemos hoje... Porque hoje, o culto ao eu é o verdadeiro a ser vivenciado.
Quão tolos somos em ainda acreditar nos sentimentos profundos e na verdade de ser que cada qual carrega consigo?
Pensei, o verdadeiro medo que temos que ter é de nos deixar embrutecer, mesmo que os embrutecidos tenham nos golpeado tantas vezes, não desejemos ser como eles... seremos nossa verdade de ser e serão os nossos sentimentos, estes os mais profundos, que quebrarão as pedras do caminho... e nos proporcionarão que outros seres possam se ver e em suas verdades se reconhecerem em nós.
Olhe nos meus olhos (sempre), saiba que desejo saber verdadeiramente como você se sente hoje... se realmente estás feliz ou ouvir calmamente, com todo o tempo que for preciso, o que angustia o vosso coração. Eu me reconheço em você e me conheço em você. Quando você me deixa tocar a sua alma, temos uma ligação que nunca se romperá. Quando deixo que você toque a minha alma, te guardarei comigo até o fim dos meus dias e isso nunca se perderá. Prometamos não nos embrutecer, pois sempre lembraremos um ao outro que ser humano vale a pena e é o que somos.
Me permiti a dar um conselho ao meu amigo, mesmo não possuindo qualquer sabedoria além da que ele mesmo possui... “Cuide do seu coração e cuide sem medo... e se precisar de um tempo use-o sem pensar para curá-lo... e faça o melhor para ficar bem. Você tem um coração bom, merece o melhor desta vida... Não deixe que isto se perca. Nunca perca a esperança nas pessoas... elas estão perdidas, assim como nós também estamos.” Quero dizer, ainda não descobri como viver sem a esperança de que um dia nos encontraremos... Não estamos parados, vamos continuar a caminhar. Deve haver amor ali à frente... estou certo que sim! Eu já o sinto daqui... Amor por todos os lados...
Feche os olhos... deixe-se sentir também...
Eu lhe toco a mão, te ajudo... coloco uma canção para tocar.

Há(verá) você.

Esperava pela chuva que se atrasou de tal forma que até nos deixou indecisos sobre a estação. Apesar de sua demora, já fazia frio há algum tempo e não esperava que houvesse algo que se atreveria a aquecer a noite escura. Mas houve, e era você. 
Chegou um momento em que já não sabia se deveria deixar-me invadir por teu calor ou repelir tão sensação tão imediata ou deixar que aos poucos me aquecesse e me preenchesse... mesmo sem saber por quanto tempo duraria este conforto e este bem estar que me oferecias.
Fui sendo aquecida, pouco a pouco, dia após dia, a cada minuto de espera e a cada aparição repentina. E essa sensação de calor que há tempos não sentia, surpreendeu-me de tal forma que me pergunto como é possível ser tão bom e tão inesperado assim. Mas foi e é assim porque é você e por ser você há este conforto tão doce e tão leve que não há como pensar em frio ou permanecer esperando pela chuva.
Aquecendo-me, te aqueço e a noite que estava escura começa a resplandecer com incontáveis feixes de luzes coloridas por todos os lados enquanto toca uma daquelas músicas que gostamos na mesma proporção. E gostando de estar assim, gostando da tua presença, gosto desejando intimamente que gostes do que te ofereço também.
Está amanhecendo e talvez me deixes. Mas permaneces nessa minha sensação gostosa de te sentir. Fica, eu peço. Porém já terás ido... e fico destinada ao aguardo... até o momento em que voltes.



Uma convite à loucura

Depois que enlouqueci minha alma tem se alimentado de sinestesias e misturas com a as almas das outras pessoas... já não consigo usar a venda da normalidade sobre os olhos, nem ouvir as palavras em seus significados literais... nem sentir o toque ou tocar alguém como antes. Depois que enlouqueci me misturo com outros, me visto, desvisto e transvisto uma, duas, três, infinitas vezes por momento. Depois da loucura não consegui ser a mesma pessoa nem por uma fração de segundo. Estou mudando e ao fim dessa carta sei que já não serei o mesmo que a iniciou.
Depois que enlouqueci vejo pelos olhos dos outros querendo conhecer-lhes a alma, seus desejos, sonhos, vontades secretas. Através do olhar vejo as cores de seus medos e sinto o sabor de seus pedacinhos de insanidade que são confinados por este cotidiano que nos castra, limita, nos diminui enquanto humanos. Enlouqueci e agora o amor, o afeto, os sentimentos se resignificaram de um tanto que seria impossível explicar. Eu que nem lhe conheço, tenho certeza de que poderia te amar.
Enlouqueci, pedi ajuda e acabei por ajudar a enlouquecer todo aquele que tentou ajudar-me a me livrar da inquietude de quem não se acostuma ao que se apresenta ou o que apenas aparenta. Agora que estou louco senti o desejo incontrolável de alimentar a alma com tudo o que inspira, emociona, provoca, me tira do lugar, me transcende. Estou louco! Isto tudo é uma loucura sem tamanho e hoje sei que pior do que ser totalmente incompreendido por minha insanidade, mais loucos são os que desejam permanecer na sanidade controlada pelos valores fabricados e censura imoral.
Estou louco e permanecerei enlouquecendo cada parte, lugar, momento pelo qual eu passar ou pertencer. Se for por mim, deixarei um pedacinho de minha loucura em tudo o que eu tocar... e se você está lendo ou ouvido esta carta, saiba que também ficará em você um pedacinho desse momento, dessa insanidade, desses desejos, de todo o desvairamento que paira sobre essa atmosfera absurdamente medíocre por sua normalidade. Já não há como escapar, não somos os mesmos no minuto seguinte. E tudo o que é preciso saber já foi dito: os vossos sentidos mentem, precisam ser misturados. Precisamos ser misturados também... uns com os outros e alimentando nossas almas de vinho e poesia. Hoje façamos um brinde às misturas necessárias. 

Façamos um brinde a minha loucura... e façamos um brinde a sua!

O ano novo que de velho sempre tem o todo.


Inicia-se um novo ano, com todas as histórias do ano antigo por continuarem, com todos os sentimentos do ano antigo a tirar-me o sono, com todo o amor do ano antigo que pensei que a virada o tornaria mais fraco... mais fácil de sentir... mas a divisão entre ano velho e o novo é revestido de nada mais, nada menos, que ilusões fabricadas para que não desistamos de viver, seguir, tentar de novo.

Tenho acordado todos estes dias de 2015 com a mesma sensação de que há um caminho enorme e tortuoso a ser seguido e pensando se terei forças e esperanças suficientes para segui-lo. Penso ainda, todas as manhãs - sejam de chuva ou de sol - se o amor deixará de doer aqui dentro... se será capaz de ser revivido ou transformado... como no ano antigo, mesmo que já estejamos no dito ano novo.
A verdade é que também me alimento de algumas ilusões, pois há uma parte de humanidade em mim que nunca deixarei ser transformada, e assim, nós humanos sempre teremos essa vontade de nos iludirmos um pouco, uma vez que a realidade é dura demais para ser suportada sem qualquer tipo de fuga... porém, é preciso lembrar que há boas e más ilusões.
Pergunto, por quais você tem se deixado iludir?
Neste ano novo, que mais parece ano velho salvo todas as esperanças e desejos e planos e tudo o mais que pensamos que virá, espero haja mais amor... mas o amor que nos dê a parte boa das ilusões... a parte que nos ajuda a seguir acreditando, que passando-se os anos, iniciando e fechando ciclos, vale a pena continuar vivendo.
Que em 2015 tenhamos menos medo de sermos humanos e quem sabe realmente será um ano novo, diferente do ano velho que ainda sinto fechar-me a garganta. Por mais humanidade - eis a minha ilusão. E que ilusão mágica, não é mesmo?
Por mais clichê que seja... 
"Que seja doce".

27 de agosto de 2014

Em medos e quereres.

É como se a qualquer momento eu pudesse cair em um pranto desesperado... Na hora de comer, ao tomar banho, ao encontrar com as outras pessoas... É como se elas pudesse ver dentro de mim os pedaços de medo se repartindo em milhões de outros pedacinhos. Partículas de lembranças, planos, carinhos, lágrimas, sorrisos... partículas de quem sou desde que a conheci.

A verdade é que desde o dia em que a vi pela primeira vez e olhei profundamente nos seus olhos tenho descoberto mais de mim e muito mais o quanto viver vale a pena... Mas, ah o mas... mas só de imaginar vê-la indo embora, a minha alma parece ir se despedaçando e sendo expulsa por esses prantos desesperados e inconvenientes aos que não entendem.

Sei que só queria poder dizer da felicidade que sinto quando ouço a sua voz... quando ela se lembra de mim ou quando falamos do futuro e assim falamos de nós em uma união que prevalecerá às nossas crises mais profundas. Porque eis que vos digo: quanto mais profundos os enlaces, mais profundas serão as vossas crises e a vossa tristeza diante delas.

Eu queria ainda, poder dizer a ela o quanto a amo de uma forma que não restasse qualquer dúvida... contar como não durmo bem se não estamos bem e que não há sono quando me preocupo ou sinto que há algo errado...  E que quando não durmo, o dia seguinte parece sem cor e humor.

Mas talvez nada disso faça muito sentido, me restando apenas a tarefa de afogar tanta angústia da forma que me aprouver. Talvez com vinho e poesia como já dissera o poeta... talvez com trabalho - se eu conseguisse me concentrar em algo... mas chego a conclusão de que o vinho se faz mais propício inclusive para expulsar de uma vez por todas as lágrimas medrosas que inundam-me por dentro.

Fico a imaginar o que seria de tudo isso se minha amada me deixasse aqui, sem o a sua voz, risada, piada, carinho... se fosse embora nessas idas sem volta... dessas dores sem tamanho.
Então decido parar de pensar. Preciso respirar e confiar no que foi e no que tem sido e lutar pelo que virá. Eis que percebo: são dias cinzas... mas o amanhã poderá receber uma outra cor... dependendo de como acordarmos.

31 de maio de 2014

Sente... eu te ajudo.

Hoje um amigo se queixou para mim a respeito do quanto as pessoas de bom coração são massacradas por aquelas que não se importam com os sentimentos dos outros. Refletimos um pouco sobre isso... eu com minha constante curiosidade e ele sobre suas lágrimas de tristeza inconsolável. Percebemos, juntos, que esse mundo ao avesso, superficial e injusto provoca um sentimento de desamor em todos os quais que deixaram o coração aberto para o embrutecimento... e mais ainda, o reflexo de tais corações acaba por atingir os que em nada temem amar e serem amados. O embrutecimento assim, atinge a todos e a todos faz sofrer, de uma forma ou de outra.
Quantos poetas já nos presentearam com o ápice de suas dores e seu amores irremediáveis? Mesmo assim parece-nos que a poesia não cabe ao nosso tempo. Rimas, versos, histórias e aventuras de amantes que não fazem parte do que vivemos hoje... Porque hoje, o culto ao eu é o verdadeiro a ser vivenciado.
Quão tolos somos em ainda acreditar nos sentimentos profundos e na verdade de ser que cada qual carrega consigo?
Pensei, o verdadeiro medo que temos que ter é de nos deixar embrutecer, mesmo que os embrutecidos tenham nos golpeado tantas vezes, não desejemos ser como eles... seremos nossa verdade de ser e serão os nossos sentimentos, estes os mais profundos, que quebrarão as pedras do caminho... e nos proporcionarão que outros seres possam se ver e em suas verdades se reconhecerem em nós.
Olhe nos meus olhos (sempre), saiba que desejo saber verdadeiramente como você se sente hoje... se realmente estás feliz ou ouvir calmamente, com todo o tempo que for preciso, o que angustia o vosso coração. Eu me reconheço em você e me conheço em você. Quando você me deixa tocar a sua alma, temos uma ligação que nunca se romperá. Quando deixo que você toque a minha alma, te guardarei comigo até o fim dos meus dias e isso nunca se perderá. Prometamos não nos embrutecer, pois sempre lembraremos um ao outro que ser humano vale a pena e é o que somos.
Me permiti a dar um conselho ao meu amigo, mesmo não possuindo qualquer sabedoria além da que ele mesmo possui... “Cuide do seu coração e cuide sem medo... e se precisar de um tempo use-o sem pensar para curá-lo... e faça o melhor para ficar bem. Você tem um coração bom, merece o melhor desta vida... Não deixe que isto se perca. Nunca perca a esperança nas pessoas... elas estão perdidas, assim como nós também estamos.” Quero dizer, ainda não descobri como viver sem a esperança de que um dia nos encontraremos... Não estamos parados, vamos continuar a caminhar. Deve haver amor ali à frente... estou certo que sim! Eu já o sinto daqui... Amor por todos os lados...

Feche os olhos... deixe-se sentir também...
Eu lhe toco a mão, te ajudo... coloco um vinil pra tocar.


28 de setembro de 2013

Dentro.

Não tinha para onde ir, não havia o que fazer, não sabia a quem chamar.
De repente ficou sem ar, sem chão, sem saber...
Já não havia um lugar que acreditasse ser seu.
 Já não sentia parte, com todos os seus sentimentos, de qualquer coisa... como outrora havia sentido.
Mas sentiu que havia amor, que haviam esperanças e assim sustentou-se dia após dia, as vezes cambaleando, as vezes saltando de alegria efêmera... mas o que lhe dava mais sentido eram os discos, as películas e o bom vinho que tomava sozinha e com saudade.
Não havendo para onde ir, ia para dentro de si e assim se aprofundava... onde poucos haviam conseguido chegar.
Era noite e tinha um colorido especial nas ruas, no portão, no quarto de dormir, na mobília e nos próprios olhos diante do espelho. Sua alma resplandecia com um fervor que não via há tempos.
Finalmente voltou a se enxergar: no meio do caminho do não caminho, ser si mesmo era o melhor a se trilhar...

Pensou.
Foi.

Si.

18 de julho de 2013

Enlouquecer

É preciso ter muito cuidado para não enlouquecer.
Li esta frase no muro de uma fábrica no caminho que uso para chegar à universidade. Pensei em quem poderia tê-la escrito e o que sentia enquanto a marcava naquelas paredes cinzentas.
Creio que os melhores momentos de reflexão são estes que nos perturbam e que não nos deixam chegar a uma conclusão apenas.  A verdade é que fiquei a pensar pra dentro. E dentro de mim, percebi, que existe um medo muito grande de enlouquecer por completo.
Enlouqueço aos poucos com as rotinas que nos impõem um ritmo estrangulador em que não temos tempo para pensar sobre nós mesmos. Enlouquecedora é a ausência de tempo para escrever cartas a quem se ama, conversar com um amigo que há tempos não se encontra, respirar pausadamente por um instante sem pensar que se está perdendo um tempo precioso de trabalho, estudo, produtividade e demais exigências às quais somos submetidos e as cumprimos mais por obrigação do que por vontade.
Chego então a pensar que existem muitos loucos neste mundo e que vivemos em uma sociedade doente em que a posse se tornou mais importante que a solidariedade e o sentimento de fazer parte em conjunto. Tentam nos ensinar desde pequenininhos que a felicidade se consiste na superioridade em relação aos outros. Pensando bem, pensando em tudo, desse jeito este mundo a mim não serve de nada.
Começo a achar que precisamos muito mais de gente que escute mais do que fale de si mesmo.
É preciso tomar cuidado para não enlouquecer sob a opressão do tempo sobre os nossos ombros. De fato, e cada vez com mais certeza, afirmo: O tempo do mundo não é o tempo que eu sinto por dentro.
É preciso mais versos entre os segundos. É preciso mais acordes entre os minutos. É preciso combater a doença da pressa e do imediatismo. É preciso que se realizem atos públicos contra o egoísmo. É preciso desenvolvimento humano com música e poesia em meio à contagem dos dias.
É preciso tomar muito cuidado para não enlouquecer, pois o mundo embrutece os que não fogem dele de vez em quando. E que ótimo seria se não precisássemos fugir.
Para os que desejam o mundo ao avesso plantando a semente da meritocracia, da ordem e progresso, sou uma grande louca. Para mim a sanidade dos servos do tempo esmagador é a pura loucura que não há como ser admirada. Uma loucura incapaz de realizar um suspiro que seja, de arte, amor e humanidade.

31 de maio de 2013

Encontros

Boa noite, caro amigo.

Escrevo-te esta carta datilografada, mais para dizer a mim mesma do que dizer a ti, a respeito de encontros... porque acredito que pouco pensamos sobre eles.

Caso queiras me perguntar se acredito em destino, lhe adianto que não sei ao certo sobre estas coisas de futuro... e isso não vem ao caso, também. Quero lhe falar nesta noite em que escrevo, neste momento em que abres este envelope viajado, que podemos não perceber... mas somos todos feitos de encontros.

Gostaria de te dizer que já tive muitos encontros especiais nesta vida... encontros de alma, sabe?  Destes que acontecem quando há um envolvimento do que é de verdade em alguém com o que é de verdade em você e então você fica extasiado e surpreso em como de repente se consegue sentir, falar, ouvir esse alguém de uma forma tão diferente de todas as outras pessoas.

Somos feitos dessa matéria que é o envolvimento de uma alma à outra. Algumas pessoas chamam estes encontros de amor, outras de amizade, outras de outros nomes... na verdade isso também não importa. Importante mesmo é saber o que fazer quando se tem um encontro tão especial como este. Você já parou para pensar nisso, caro amigo?

No ultimo mês de abril eu tive um encontro especial... Mas muito mais surpreendente do que eu imaginava que poderia ser. Estava pela vida sem eira nem beira, sem lenço nem documento, vendo a banda passar cantando coisas de amor... aaah o amor... estava quase para desistir do bendito, de tanto apanhar da vida, de tanto amar dolorido.  Mas eu estava lá... na avenida e vi a moça passar, tão bonita, parecia dançar.

Com um andar meio preguiçoso e apressado, de saia longa estampada, acompanhava a banda... a que eu via passar... e passou. Perdi de vista a moça que usava o lenço na cabeça, por vezes no pescoço, na cintura... incrível as várias utilidades que ela dava para o acessório colorido. Eu só sei que ela passou e eu fiquei pelo caminho.

Na manhã seguinte sai bem cedo para cumprir com os compromissos do dia, estava tudo muito tranquilo e o sol raiava forte depois da chuva que havia caído. Sentei-me no local habitual e então eu a vi novamente, para a minha surpresa a moça do lenço colorido estava bem perto de mim... foi quando pude perceber que mais do que o lenço, o seu olhar parecia me colorir também.
Eu não sabia ainda, caro amigo, mas aquele olhar passaria a me acompanhar pelos dias que me restassem.

O fato - e que coisa feia usar “fato” em um texto que fala de coisas de alma - é que minha voz chegou a tremer quando eu disse a ela que queria beijá-la. Eu realmente queria. De verdade eu tinha que ir embora, mas por um segundo tive a certeza que se eu não dissesse a ela o que eu pensava, nos perderíamos outra vez... ela passaria e dessa vez poderia ser para sempre.

A verdade é que eu sentia que aqueles olhos pediam que eu a beijasse. O batom que ela usava era o meu convite particular e irrecusável. Então a sua voz verbalizou o desejo mútuo. E preciso lhe dizer que desde esse momento eu desejo os nossos beijos todos os dias.

O encontro do qual vos falo me surpreendeu pela urgência que tivemos em misturarmos nossas almas, mesmo sem percebermos o que estávamos fazendo. Mesmo sem percebermos a seriedade do que estávamos fazendo. Acontece... caro amigo... que eu me sinto misturada a ela de uma forma extraordinariamente difícil de saber onde começo e onde ela termina.

Decidi te contar estas coisas para que não penses que é mero capricho e exagero dos poetas quando eles dizem que um pedaço de si pertence ao outro que é o objeto do seu amor. Objeto também uma palavra feia nos meio destas outras, mas na maioria das vezes o problema das palavras é a forma como as sentimos e não o seu sentido literal.

Amigo, um pedaço de mim não me pertence mais e o mais louco de tudo é que estou feliz por isso. Veja só! Quanta loucura no ser que vos escreve! De fato, loucura extrema que me levou todos os medos me preenchendo da mais pura coragem e vontade de ser feliz. Minha vontade de ser feliz se mistura à vontade de proporcionar felicidade á dona dos meus bom dias e boa noites diários.

Acreditarias se eu dissesse que passei a andar de um jeito preguiçoso e apressado?

Veja bem... vou entender se me disseres que não acreditas em nada que vos digo. Que isto tudo é falácia de romance literário ou então delírio de tolos. Eu mesma cheguei a pensar desta forma! É que quando se apanha tanto por causa de amor, por causa da indecisão das pessoas, por causa da intensidade do que se sente... por tantos motivos... é mais fácil deixar de acreditar que há mais de um alguém neste mundo que pode te ajudar a ser mais feliz do que você poderia imaginar.

Mesmo assim declaro que minha alma foi surpreendentemente misturada à dela desde o primeiro beijo. E eu te afirmo, sem medo de que aches que é tolice, que vale a pena acreditar e se permitir. Porque o importante não e apenas ter um encontro... mas saber o que fazer quando ele acontece. Importante é reconhecê-lo e a partir daí deixar que ele engula o seu medo, te permitindo viver perigosamente pelos caminhos desconhecidos da alma do outro enquanto o outro te percorre da mesma forma.

Hoje eu não vou encerrar este texto de forma coerente... Me recuso a dar um fim lógico pra esse esboço de pensamento, mas eu gostaria que você pensasse a respeito dos encontros e de como lidamos com eles. O meu encontro, caro amigo, me surpreendeu porque, mesmo sem saber, aconteceu exatamente como eu sempre esperei que acontecesse... e é por isso que eu estou tão feliz.

E eu desejo essa felicidade a ti.


19 de maio de 2013

O amor me tira o sono



O amor me tira o sono.
Foi a primeira frase que me veio à cabeça quando pensei em escrever mais uma carta não postada sobre amor. A verdade é que é verdade, o amor é perturbador.
Alimenta, preenche, pulsa, porém também adoece e pode matar quem o sente. Matar de sorrisos ou de lágrimas, depende. Depende de quê, você diria. Quem sabe, eu responderia sem resposta efetiva.

Há muitas pessoas que já morreram de amor, que estão mortas por dentro, que se fecharam para o mundo, que esfriaram, você as culpa? O amor pode matar e cada vez mais as pessoas tem muito medo de morrer mais de uma vez.

De sorte que a vida pode se colorir de novo e de novo. Veja bem meu bem. Quando um coração se aquece de repente, começa a mudar a cor e os dias passam a amanhecer mais alegres mesmo em manhãs de chuva, fique esperto... porque virão noites sem sono.

O amor é para os que não temem as distâncias. Esse amor que nos perturba é para os que têm coragem, acredito. Para quem não tem medo do salto de um precipício, não canso de dizer. O amor é para quem não tem medo de morrer se o salto não der certo.

Hoje eu amanheci sem medo algum... e preciso te contar umas coisas, assim mesmo, com muitas reticências em quase todas as frases.

Eu gostaria de te contar que já morri de amor, sabe... esfriei, quase me perco de mim mesmo, fiquei destruído. Tive um amor tão grande que quase me consumiu por dentro e quase me levou dessa para uma pior. E te digo mais... se eu pudesse voltar no tempo, não teria mudado uma vírgula sequer dos poemas que escrevi... muito menos ousaria deixar de sentir tudo o que senti.

E não adianta beber, correr... Não se esquece dum amor nem com reza brava do melhor dos religiosos. O amor é teimoso, não nos abandona, não desiste de nós... nós é que desistimos do amor, nos reinventamos, sentimos milhões de outras coisas e o deixamos de escanteio, como que de castigo,como que dizendo a ele para aprender que não se maltrata tanto um alguém desse jeito.

O amor é desses que faz com que os amantes gastem todo o seu dinheiro nas maiores loucuras mesmo quando precisam economizar. Faz-te sorrir, passar horas no telefone, até achar que a saudade é uma coisa boa, viajar... Faz-te ir ao encontro do outro não importando o quão distante o outro esteja. Ouso dizer que se você já teve um grande amor, sabe que não há obstáculo grande o bastante para os que não têm medo. Lembra que te disse que o amor é para os que não têm medo?

Hoje eu amanheci sem medo algum. Veja bem meu bem. Quem diria, você diria. Ninguém, eu responderia de fato.

De sorte que o coração se aquece de novo e de novo dependendo das cores que te surpreendem quando menos se espera. É sério, acredite em mim, pois quem vos escreve é prova viva da capacidade que a vida tem de virar de ponta à cabeça e desvirar a qualquer momento. Sou prova do que o amor pode fazer com as pessoas... e é justamente por isso que te digo: o amor é importante e só se vive plenamente com amor.

O amor me tira o sono... é a primeira frase que me vem à cabeça. E acho que por isso que tenho tido insônias terríveis. Ainda bem. Estou me recolorindo por dentro. Acontece que só desejo viver plenamente e não vejo mal algum nisso. Se você vê, me diga por favor... Porque não se vê com muita clareza quando se está amando, eu sei.

Mas se quiseres um conselho, caro amigo, te dou o seguinte: se tiveres um amor que valha a pena, conserve-o. Quem precisa dormir quando se pode passar os dias e as noites ouvindo Chico e Ana? Quem precisa de sono quando se está febril de tanto escrever cartas e frases sem sentido, como estas? Se tiveres um amor que valha a pena, lute por ele antes que seja tarde demais para uma oportunidade de vivê-lo.

Desejo, de verdade, que tenhas um bom dia, hoje e amanhã... E que o ontem seja bom para boas lembranças apenas, sem rancores ou dores que te esfriem e te acinzentem. Eu realmente gosto de você, mesmo que eu não te conheça. Se eu não te conheço, ainda melhor... assim não tenho motivo algum para não gostar de você. Saiba que essa é uma carta de coração, pois te desejo boas coisas, sempre. Eu desejo que, você e todo o mundo, se permita sentir amor e muita falta de sono.

Eu te desejo mais: quem se ama para dormir quando o sono vier. 


17 de janeiro de 2013

Eu precisava desse teu sorriso.

Enquanto todos os outros se deleitam nas relações permeadas pela posse e pela superficialidade, me apareces de forma inesperada, sutil e carinhosa e preenches os meus dias da mais pura poesia, do brilho nos olhos, do cultivo da esperança e dos sentimentos que valem a pena.

Aqui dentro é apenas mistura, de bem querer, de sinceridade, de versos e rimas, de você e tudo o mais que me fazes sentir. Da presença e do beijo. Do não saber o que fazer e apenas viver o que se deseja viver.

Aqui dentro é apenas lugar de te guardar e guardar apenas o que é leve e bom. Guardar o bem que sinto ao olhar nos teus olhos e ver as coisas que você não costuma mostrar. Guardar apenas o que precisa ser guardado.

Mas que saudade imensa havia sentido e que apenas percebi sua dimensão no abraço do reencontro. Antes nunca havia ouvido falar de saudade saudável que se matasse com simples presença, conversa franca  e coração quente.
A nós apenas os livros que nos resumem. Apenas o bom, o inexplicável e a sensação de nada ter mudado.

“Bem contente de te ver. Eu precisava desse teu sorriso.”
E porque somos de verdade, nunca houve recíproca mais verdadeira.
E o que é raro merece espaço.

Seja bem vinda, novamente.
Sente...

13 de janeiro de 2013

Pra te acalmar


Ouvindo Marcelo Camelo cantar:
"Passo essa canção pra te acalmar
Esteja, morena, você aonde for
Você sabe bem onde fica toda dor, morena
A chuva e um tanto de tempo pra molhar
O vento que bate pra gente se secar."
Hoje, e com você, eu preciso completar, cantarolar...
Sabe essa canção que nos acalma? 
É nossa, morena, do jardim a nossa flor
Cultive-a comigo regando com muita cor
A chuva que cai em nós, deixa molhar...
Contigo todo o sorriso há de durar.
A chuva que cai em nós, deixa molhar...
E o vento levar o que tem que se levar.

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Entra... deixo que faças sua casa
Com o melhor que há de mim.

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2 de janeiro de 2013

Giselly

Ouvi dizer que há vários tipos de amores e que podemos senti-los em diferentes intensidades vivendo-os de inúmeras formas. Uma grande mistura de muitas variáveis em que não há fórmula alguma que se possa aplicar afim de chegarmos a qualquer tipo de objetivação.
Caímos no poço das coisas inexplicáveis mais explicadas que existem, correndo o risco de afogar-nos em melancolia e discursos exaustivos que servem apenas a nós mesmos...
Antes de me afogar, no segundo do ultimo suspiro tive um filete de sanidade a tempo de entender que, mais do que refletidos, os amores precisam ser sentidos... Desde tal dia, não vivi um dia sequer em vão.

A saudade que sinto não há presença o bastante que sane. É sentimento de saudade eterna e simples saudosismo de uma mistura de sinceridade e intensidade e amor e desentendimento e reconciliação e leitura de olhar e você e.
Ouvi mesmo dizer que há vários tipos de amores, mas muito mais do que o que ouvimos, o que nos forma é o que vivemos. De alma afirmo-vos: há uma mistura inexplicável de amores diferentes em um amor só.

Que me perdoe por externar coisas que por diversos motivos podes desejar ocultar, mas conheço de ti até o que não me dizes... aliás, principalmente através das coisas não ditas. Teus olhos pequenos são como janelas profundas. Sua armadura forte e trincada, muito útil na tarefa de esconder o que já está em carne viva, não se faz obstáculo a quem lhe vê com a sensibilidade precisa.
Há cada vez menos sensibilidade entre as gentes deste mundo.

Me dirás você que sou hipócrita em falar de sensibilidade pois nossos desentendimentos estão aí para provar. Muito já me dissestes que me ama sem meu merecimento. Muito já se passou desde o dia em que nos conhecemos. E eu nada tenho a reclamar além de saudade.

Seu carinho, nossa cumplicidade, sua preocupação, nossa além-amizade.
Além de conceituação qualquer, eu te amo de uma forma de muitos amores misturados...
Todos intensos e apenas nossos: no fim apenas um.

Amor.


Não cabemos mais no pouco espaço de um abraço... já somos bem maiores a tempos.
Eu sei, você sabe, mais ninguém. Não se demore, por favor... Mesmo que eu não mereça.
Também ouvi dizer que saudade mata, mas começo a pensar que as pessoas falam demais as maiores insanidades possíveis.
Tenho tanta curiosidade por gentes insanas, inclusive nós.

Me desculpa, pois sei que não há volta para muito do que já houve.
Mais do que lembranças ainda há muito a partilhar, mesmo que menos do que desejamos.
Mas se prestares bem atenção, está tudo diferente mas como lá no iniciozinho, lembras?
Ah, menos metáforas, sei que não elas não se dão bem contigo. Mas se bem que,

por fora mudastes tanto menina, que fico a pensar...
No medo que tenho de que se percas de mim.

No fim, eu mereço. 
Te prometo.
Eu me esforço.


25 de dezembro de 2012

Trancado e febril

Me desvisto de tudo o que me atrasa, me afasta e me ofusca de você. De ti o tudo o que eu puder e o que deixares que eu alcance, sem medo das falácias das línguas mais ou menos respeitadas.
Desisti de todo o resto que me usurpa o desejo de prender-me ao nosso universo que construímos cheios de cores, músicas, danças, rimas, lágrimas, beijos e ausências. Tudo por apenas um instante. Sem roupas, relógios, sapatos e culpas. Entre e se deixe ficar porque o tempo lá fora não é o tempo que é nosso. Pois até o nosso silêncio tem mais poesia do que os livros que temos lido.
Se deixe envolver, gruda na minha carne, saboreia o que conseguires de minha alma. Deita do meu lado, juntos assistiremos Across The Universe e será como se estivéssemos vendo a nós mesmos e ouvindo as canções que também falam das loucuras das quais somos feitos.
Sei que estou febril e um pouco distante da lucidez, mas o amor que tenho em mim me alimenta e me consome diariamente, enquanto tudo o que consigo fazer é atravessar as noites a lhe escrever estas cartas que nunca lhe entregarei.
Abandonei o emprego, me desfiz de todas as obrigações hipócritas às quais nos submetemos no cotidiano para cumprir um papel que não corresponde ao que somos, ao que sentimos, ao que queremos. Já faz tempo só quero ficar aqui, mesmo que trancado, mesmo que febril, mesmo que a olheiras tenham escurecido a cada noite em que roubastes meus sonhos e em todos eles me abandonastes.
A verdade é que tranquei-me para guardar-te dentro de mim e para que ninguém pudesse tirar-te. 
Amontoo cada vez mais todos os poemas, desenhos, inspirações suas em mim dentro da caixa ao lado da máquina de escrever.
As vezes saio do devaneio e respiro um pouco na janela do quarto. Eis o único momento em que penso: do nosso universo terá sobrado algo além de mim e do amor que tenho guardado? 

19 de dezembro de 2012

Qualquer dia desses é Carnaval

Qualquer dia desses seja pela praia ou seja pelas ruas, quem sabe naquele boteco da praça, qualquer lugar da sua vida, saio por entre os outros e te surpreendo com olhar vivo, castanho claro e te dou um boa noite. 
Me verás da mesma forma de antes, no colorido dos meus olhos toda a história já vivida e a poesia pulsante e que já é tudo meu e há pouco do que era o nosso.
Te surpreendo com voz doce e rima amiga, como uma mescla de musica calma e cores abertas e nestes segundos de certeza te beijarei a face com a sutileza de amante antigo e gentil.
Sorrirei com carinho enquanto afago teus cabelos no abraço de saudade e partirei entre os brincantes deixando apenas a estranha sensação do não vivido. Do que não houve. Do que podia ter sido.
Dançando nos perderemos pela multidão pelos caminhos que traçamos sob as marchinhas do carnaval mais esperado. Cada vez mais distantes um do outro.
Guardarei a lembrança do teu cheiro de folia e o tom da sua voz como se não houvesse possibilidade de outro encontro. Porque mesmo o passado é presente e o que vai se perdendo nem sempre se sente. Pois todo carnaval tem seu fim, assim como também tivemos o nosso.
E se outrora triste, hoje sou só alegria, ponha sua máscara que refiz minha maquiagem. Do nosso final nos restaram apenas as cartas de amor e caixinhas guardadas no fundo das gavetas as quais abrimos pouco... todas cheiasdo que poderia ter sido e nunca mais poderá ser.
Qualquer dia desses, pela praia, pelas ruas, tanto faz... pela sua vida eu apareço sob a forma daquela sua música favorita.
Ou quem sabe na próxima esquina, 


29 de setembro de 2012

Fica por aqui


Que essa luz comprida ficou tão bonita em você daqui...
O aroma de chá de camomila com erva cidreira misturado ao cheiro das flores plantadas em vasinhos coloridos pintados à mão por nós mesmos. Almofadas de todas as cores espalhadas pelos cantos do salão iluminado como se  o por-do-sol estivesse dentro, preenchendo, inclusive a nós. Um lugar para ficar sem sandálias, sentindo o chão, se sentindo pertencente ao todo, até mesmo ao brilho das lapadinhas amarelas penduradas como cordões pelo teto.
E música. O toca discos está no canto e pode ficar a vontade para escolher, Clara, Chico, Zé, Bethânia, Elis, Caetano, o que for. O importante é sentir cada palavra, acorde, melodia em você. É tempo de se sentir. E eu posso cantar também, se preferir, as canções que lembram o nosso tempo mais feliz.
No meio tem espaço para dançar, se você quiser, se o corpo mandar. Dançar, girar, deitar, liberar todo esse peso que está sobre nós. O peso da injustiça que presenciamos todos os dias e tanto falávamos na faculdade quando nossos intervalos coincidiam e tínhamos tempo para um café antes da próxima aula.
Acostumei-me a tomar café até depois que fostes embora para o Rio de Janeiro, porque é assim que acontece, a pessoa entra, convive, te preenche e quando vai embora, deixa em nós todos os costumes e manias e vontades e. Ainda tomo o café, forte, preto com gosto de saudade. O gosto que nunca mudou mesmo depois que voltastes para visitar.
A verdade é que as visitas não me bastam mais e preparei este salão com todas as coisas que nos fazem bem e nos fazem mais bonitos, e nos fazem mais felizes. Com nossos livros preferidos ao alcance dos dedos para os momentos em que a poesia saltar da mente. Tá tudo ali, Pessoa, Caio, García Marquez, Galeano, Neruda, Cortazar, os poemas que fiz e os que fizestes pra mim, letras, palavras, sentimentos, nós. Tudo pra você sentir vontade de ficar.
Podemos convidar todos os nossos amigos, aposto que eles vão adorar, porque está tudo tão a cara da gente, como se você nunca tivesse ido embora, e eu não tivesse teimado tanto, e você não tivesse sido tão indecisa, e eu não tivesse me desesperado. Está tudo como sempre, porque por mais que escolhamos não tocar no assunto, sabemos bem que há coisas que são para sempre.
O que eu quero te dizer é que gastei todo o meu tempo arrumando este salão e mais nada eu fazia porque não quero fazer mais nada se for pra continuar olhando para a vida em tons pastéis, somente. Eu quero voltar a olhar os tons vibrantes que me ensinastes a ver nas simplicidades da vida. No café preto, nos intervalos, no jeito de dançar, nos versos, nos acordes despretensiosos que utilizei para compor a canção que fala de nós.
Olha tudo isso, toca, sente. Olha nos meus olhos castanhos e verás que não vai ser preciso dizer eu te amo.

Deixa-me tocar para você a música que eu fiz. Fica para ouvir, por favor.

19 de agosto de 2012

Ao amigo desconexo


Há pouco tempo eu tinha repensado se esse pseudônimo que tens usado a tanto tempo era agora de fato o mais adequado a ti, caro amigo. Logo você que eu tenho visto tão confiante, pisando firme como nenhum outro vejo caminhando.
Justamente por te conhecer um pouco, bem mais do que a maioria das pessoas, acredito que tal pseudônimo não se perdeu no tempo... mesmo sendo antigo como sabemos.

Cheguei em casa e imediatamente sentei à escrivaninha. Papel e caneta para escrever uma coisa tão grandiosa que me dava calafrios de tanta responsabilidade... uma carta para um amigo muito importante. Coisas grandiosas e importantes sempre nos darão calafrios, não importa o tanto que tentemos resistir aos mesmos. Há sentimentos que não obedecem a qualquer tipo de racionalidade.
Os primeiros riscos foram esboçados... nenhum verso seria bom o bastante, eu já sabia. Depois de tantos anos e tantas vivências, experiências, havia acontecido um momento em que deveríamos estar lado a lado e eu não estive... há momentos quem que pedir perdão é a menor das atitudes que podemos ter para a resolução de nossas falhas e problemas.
A verdade, querido amigo, é que parece que já tentamos tudo. As mais diversas fugas! Desde os amores sem nomes e sem amanhãs, os dias e as noites de embriaguês, o esgotamento na luta por um mundo melhor e todos os tipos de nicotina...
Temos nos matado cada vez mais e você muito mais do que eu... percebo que tens vivido cada dia como se fosse o ultimo, como se não fosses viver o amanhã necessitando de cumprir com todos os compromissos ate o ultimo minuto do dia. Refúgio... E  eu, nem isso.
E não sei se por causa das injúrias ou pelo vinho, adormeci na escrivaninha em cima do Amor nos tempos de cólera, do García Marquez ao tentar lhe escrever algumas palavras.
Acordei com a família me exigindo explicações. Tinham os jornais nas mãos e lágrimas nos olhos diante das notícias do ultimo protesto em que protagonizei. Estremeci a valer pela base, pelas pernas e então entendi que não deveria ter acordado tão imediatamente. Quem sabe fosse melhor ter permanecido de olhos fechados o tempo suficiente para pensar as coisas que deveria dizer.
Mas acordei, caro amigo. Devemos todos acordar e encarar os que nos amam nos olhos. E depois de todos os acontecidos os últimos dias e dos últimos sentimentos , levantei-me da escrivaninha e consegui apenas escrever-lhe um bilhete:

“Em vão, tentei escrever palavras de gratidão ao meu amigo desconexo tão diferente e tão parecido a mim em vários aspectos... Sinto mais uma vez. O máximo que consigo dizer é que fazemos parte do processo de loucura e lucidez um do outro.
Independente do ciclo, sempre nos encontraremos.
Obrigado.”