tudo é provisóriamente eterno para os poetas... tudo é eternamente provisório para os amantes e o poema apenas a configuração do instante.

-Capinam-

10 de abril de 2011

Pelo espelho: A fera em si mesmo.

Não tenha medo da mordida, da fome de carne humana, de intensidade, de tudo o que é fugaz.


Olhou pro espelho e viu a fera que mora dentro de si... a fera, a verdade, a vontade... o ranger de dentes. Sentiu o sangue pulsando, os sentidos despertos, as pupilas dilatadas e tudo ao alcance dos dedos... tudo possível. O tudo. A vontade de pular, correr, quebrar... de sexo selvagem sem bom dia no dia, no dia que se segue, sem saber será bom dia. Quis sentir tudo o que dá pra sentir... o abraço, a língua, o álcool, a musica, o gozo e a incerteza da existência de um a manhã ou de uma porra qualquer que vá além do que acontece no agora. Ouviu dizer que anda muito impaciente, querendo as revoluções pra hoje, pra daqui a pouco depois do ultimo gole... o gole que dá força pro mal traçado dessas poucas tortas linhas de texto que talvez não faça o mínimo sentido pra outrem, depois. Olhou pro espelho e viu no olho um vermelho, desfocado, quase saltado da órbita e o próprio corpo querendo saltar, sair de si, arranhar, quebrar, atingir... Lembrou da moça bonita, aquela que todos estavam querendo... que ele provavelmente deveria querer... mas de verdade tem pensado que talvez seja de si e de suas escolhas viver só, valorizar os mistérios e a dor da solidão... Pensou ser deveras estranho por não gostar de nada que é superficial... por ser alguém que gosta da profundidade das coisas, mesmo sabendo que a profundidade também traz dor. Pensou que talvez seja bem esse o próprio jeito de amar e viver. De amar a impossibilidade aparente e querer que continuem impossíveis os amores todos. Talvez seja isso mesmo... a escolha de ser poeta solitário, no medo do que quer que seja que possa por correntes no seu coração... de que se mantenha preso a algum lugar qualquer mesmo que esse outro lugar seja um alguém. Lembrou que vive de amor e de dor e de sonhos e só. Que pela dor aprendeu, na carne, viver o amor.

É noite e quem se atreva a olhar no espelho verá os próprios demônios e gostará deles.

25 de fevereiro de 2011

Os sobreviventes

Completos 15 anos de partida de Caio F. Morto em 25 de fevereiro de 1996.
Esse é um dos textos que eu mais gosto e é dedicado aos meus amigos Poeta e Desconexo.
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(Para ler ao som de Angela Ro-Ro)
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SRI LANKA, quem sabe? Ela me diz, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? uma certa saudade: em Sri Lanka, brincando de Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras e abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodka nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz rouca, fico por aqui comparecendo a atos públicos, entre uma e outra carreira, pixando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia vossos fatigados pés
descalços ao fim de mais uma semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro, e não queria lembrar mas não me saía da cabeça o teu pau murchos e os bicos do meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, mas não sei se você acreditou. Quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanta tesão mental espiritual moral existencial e nenhuma física, e eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, ai como éramos diferentes, éramos melhores, éramos mais, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou, cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, enfiava fundo o dedo na buceta noite após noite pedindo mete fundo, coração, explode junto comigo, depois virava de bruços e chorava no travesseiro porque naquele tempo ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem, o Relatório Hite liberou a punheta. Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso? Naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, imbecil, e eu disse não, o que acontece é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virginia Woolf, como era mesmo? Vita, Vita Sackville-West e o veado do marido, não se erice, queridinho, não tenho nada contra veados, me passa a vodka, o quê? e eu lá tenho grana pra comprar wyborowas? não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral, não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa. Peço cigarro e ela me atira o maço na cara, com que joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, afinal você naquele tempo ainda não tinha se decidido a dar a bunda, nem eu a lamber buceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun, little darling; 70 em Nova Iorque dançando disco-music no Studio; 80 a gente aqui, mastigando essa coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora em esquecer esse gosto azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço? Não é plágio do Pessoa, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesuzinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos de Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, à beira do rio, deve haver um rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que. Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhos do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, ouvindo samba-canção e blues com caipira de vodka, neste apartamento que pago com o suor do potencial criativo da bunda que dou oito horas diárias pra aquela multinacional fodida. Mas eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca, me passa o cigarro, não estou desesperada, ,não mais do que sempre estive, não estou bêbada nem louca, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, não se preocupe, depois que você sair tomo banho frio, lente quente com mel de eucalipto e ginseng, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-esei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma? Passa devagar a tua mão na minha cabeça, no meu coração, eu tive tanto amor um dia, pára e pede, preciso tanto, tanto, tanto, bicho, não me permitiram, então estendo os dedos e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e muito velha e completamente bêbada, eu não tinha essas marcas em volta dos olhos, eu não tinha esses vincos em torno da boca, eu não tinha esse jeito de sapatão cansado, e eu repito que não, que está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho o Noturno número dois em mi bemol de Chopin, quero deixá-la assim, dormindo no escuro, sobre este sofá, ao lado das papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de ninar, mas ela se contrai violenta e pede que eu ponha Angela outra vez, então viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça sobre a privada para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, bocas amargas, fragmentos azedos sobre as línguas, ela puxa a descarga e vai me empurrando para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor dizendo não esqueça então de mandar um cartão de Sri Lanka, aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que aconteça alguma coisa bem bonita para você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair. Atrás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Angela, nem que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé, axé! eu digo e insisto, até o elevador chegar. Axé, odara!
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Axé.

27 de janeiro de 2011

Acrobata*

Minha recomendação é que leiam, primeiramente, apenas o texto de cor preta que é na íntegra o texto de Galeano.
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Luz Marina Acosta era menininha quando descobriu o circo Firuliche.
O circo Firuliche emergiu certa noite, É quando menos se imagina e não se sabe bem de onde vem o arrepio... mas nesse momento você entende que esperou toda a vida por isso. mágico barco de luzes, das profundidades do Lago Nicarágua. Eram clarins guerreiros as cornetas de papelão dos palhaços e bandeiras altas os farrapos que ondeavam anunciando a maior festa do mundo. A lona estava toda cheia de remendos, e também os leões, aposentados leões, mas a lona era um castelo e os leões, os reis da selva. E uma senhora rechonchuda, brilhante de lantejoulas, era a rainha dos céus, balançando nos trapézios a um metro do chão.
Então, Luz Marina decidiu tornar-se acrobata. E saltou de verdade, lá do alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas. E mesmo que se quebrem as costelas, não deixa de saltar jamais. O que é uma costela diante da sensação, por mínima que seja, de voar?
E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de Somoza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.
Porque quem entra no circo Firuliche não sai jamais.
Quem sente o gosto do sonho, nunca mais é o mesmo. Nunca mais consegue viver sem sonhar. Quem consegue voar não se contenta em um mundo na superfície... e é linda a alma de quem não quer o vôo solitário, mas sonha com que todos possam voar.

Se sonha, se luta.

Porque quem entra no circo Firuliche não sai jamais.
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*Eduardo Galeano é um escritor uruguaio que fala da nossa gente. Que me faz arrepiar, acreditar e ter muito mais vontade. Os escritos em vermelho são dele em mim... são meus por ele.

19 de novembro de 2010

é só que dói muito.

começamos a esvaziar os armários.
o vazio aumentado em mim.


um dia as coisas mudam. Eu acredito.




um dia, fará diferença, o que se sente.
enquanto isso. Morreu.

2 de novembro de 2010

Verde

É sabor de verde pulsante depois do tempo em que os dias eram apenas neutros e simples demais.

Sabe o tal do tempo? Aquele que as pessoas teimam em dizer que cura tudo? Adivinha só! Essa é a maior mentira que já contaram sobre o amor.
O tempo não cura o amor. Desse amor que já faz mais mal do que bem, que traz dor, tristeza e você quer esquecer. O tempo não cura porque, amor não é doença.
Meu bem, sabe o que o tempo faz? Tira a dor do centro da vida e coloca em um plano diferente para que outro sentimento tome lugar no centro... Não se iluda, porque amor não passa.
E sabe o que é mais magnífico? Não se ama apenas uma vez.
A gente acaba por se acostumar com a dor e vê que ela é suportável quando consegue sentir que é possivel sorrir de novo... que outros sentimentos nos fazem bem.


Recentemente a menininha dos olhos cor de mel levou um susto enorme quando sentiu umas batidinhas no peito... no coraçãozinho que a muito não batia... e então se sentiu feliz.
Felicidade em sentir, em estar viva e em saber que as coisas nunca são fáceis mas que sempre se deve ter esperança.
A tua dor, menininha verde-água, me dói também. Os seus olhos são lindos quando tristes mas muito mais quando sorridentes.
São bonitos de qualquer jeito... nessa beleza que poucos entendem ou não se importam em ver.
Eu me importo. Quero ver o que nunca souberam ver. Quero olhos sorridentes para a certeza e a verdade.
Porque com quem se quer bem, queremos é ser felizes e viver o que temos. "Porque o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato."
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[sabe o coração? por mais que pensemos que ele já está fraco e fadado a morte... ele sempre pode surpreender. coração é maroto, não liga pra nada alem de sua vontade. Se ele quer pular pela boca, eu vou deixar... porque é bom tê-lo como compania, novamente.]

13 de setembro de 2010

À quem eu mais amei nessa vida.

Eu tentei pensar no que escrever. Não consegui organizar pensamento algum... e por isso ficou tudo assim mesmo, desordenado e com sentimento de saudade.
Saudade de quem mais me amou nessa vida.

Em 1990 o parto de uma mãe solteira foi meu primeiro acontecimento na vida. Minha mãe, a minha vida. Hoje, nas fotos posso perceber o olhar vibrante de uma mulher linda que acabara de conceber, dar a luz ou qualquer quer seja a nomeclatura que é costumeiro dar a esse momento. Eu prefiro dizer que fui parida. Sim, parida e amada desde esse dia até o dia em que findou-se a vida para uma de nós.
A mim, hoje, não importa o fato de termos morado em tantas cidades e estados diferentes todos os anos. O que eu sei é que fomos principalmente só nós duas... duas pra guerrear no mundo.
Tenho orgulho de dizer que o que vivemos, eu e ela, foram os momentos mais significativos e formadores da pessoa que sou hoje. A política, o mst, a realidade, o sindicato, o funcionalismo público, as vezes em que passamos fome, dormimos mal, as vezes em que foi preciso fazer grandes sacrifícios e as vezes que a vi chorar...
A vez em que ela me aceitou como sou e me amou da mesma forma, porque sabia que eu precisava.
E depois vivemos a falência dos rins, a hemodiálise, o medo, a insegurança... tudo vencido por ela... por nós, juntas. E como se não fosse o bastante veio o câncer... com ele a quimioterapia, os enjôos, a queda do cabelo e a fraqueza física. Mas com a força que não sei de onde vinha e da vontade de viver que ela tinha eu a vi vencer todas estas coisas mais.
Eis que chegou o momento em que conhecemos uma palavra fria e triste que, eu não sabia mas, ia me assustar por muito tempo - Metástase.
Essa porra de metástase que significou para mim o medo constante de perder a pessoa mais importante da minha vida, agora era fantasma presente todos os dias. E com ele veio o sangue, escarrado diariamente no balde ao lado da cama... veio a ausência de fome, outra quimioterapia, a dificuldade de respirar, as noites em claro, o hospital, o medo, o choro e a partida.
Partida para nunca mais voltar. Para sempre.

O choro no hospital, no velório e no sepultamento. O choro de todos nós.
Não sei bem quantos "meus pêsames" e "meus sentimentos" eu ouvi... de verdade não sei quantos foram mera formalidade, mas o que lembrarei sempre e darei devida importância é aos abraços sinceros e a atenção que recebi de cada pessoa nesses dias difíceis, escuros e tristes. Os vagalumes que fizeram força pra iluminar meu caminho quando a minha luz se apagou.
Aos vagalumes,
serei eternamente grata.

À minha luz,
sentirei eternas saudades.

E a dor e tristeza ainda existem... mas guardo só pra mim.
Sorriso de exorcismo.
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[poderia ser mais bonito, poético ou emocionante. Mas é só um texto, que eu não tinha intenção de escrever. O que eu senti e sinto nunca poderia ser demosntrado aqui. Eu nunca conseguiria.]
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Para quem eu mais amei na vida, Renise Sandra de Castro Souza, a minha mãe. Alguém em quem sei que vou pensar todos os dias que me restarem.